COLONIZAÇÃO ATRAVÉS DOS TEMPOS (CC)

(Deverá “clicar” nas referências bíblicas, para ter acesso aos textos)

 

 

 

1. Introdução

 

Um artigo sobre colonização poderia ser abordado sobre muitos aspectos. Mas tenciono limitar-me aos métodos de colonização utilizados pelos impérios mais poderosos, ou mais relacionados com a nossa cultura, com base em alguns exemplos de épocas diferentes.

 

 

2. Ano 1200 AC. Época de Josué

 

A guerra era considerada como um fenómeno religioso para o que se exigia “pureza litúrgica”.

Quando Israel ocupou a terra prometida pelo seu deus, infelizmente, não consta que tivesse colonizado os povos que habitavam no local. Digo infelizmente, pois a realidade que está registada no Velho Testamento é bem pior: A ordem de Jeová, o deus de Israel, foi para exterminar a todos os seus habitantes.

Como exemplo, vejamos o caso da cidade de Ai ou Hai, em que depois da cidade conquistada, todos os moradores dessa cidade foram executados na presença do rei de Ai, após o que o rei foi enforcado, como consta no Velho Testamento em Josué 8. 

Podemos também ler o caso da destruição da cidade de Jericó em Josué 6:17/24 em que tiveram de matar todos os homens, mulheres, crianças e velhos, até os animais domésticos, por ordem de Jeová, o deus dos judeus. (a)

Podemos concluir pelo Velho Testamento, que os israelitas não tinham tradição de colonização, pois exterminaram todos povos que conquistaram, embora por vezes, por decisão de Moisés, que de acordo com Números 12:03 era homem muito humilde (ou manso), tenham sobrevivido algumas crianças, como no caso mencionado em Números 31:6/18. Não sei o que teriam feito se Moisés não fosse assim tão humilde.

Embora os judeus no Velho Testamento, não tivessem colónias, tinham os seus escravos e escravas, quer obtidos por compra Génesis 17:27 ou capturados durante as guerras como vimos no versículo 9 de Números 31:6/18.

 

 

3. Ano 570 AC. Época do Profeta Daniel

 

Nessa época, Daniel era um jovem, quando Israel foi conquistado pelo Império da Babilónia como vemos no primeiro capítulo do livro do profeta Daniel, em Daniel:1 

Apresento também a versão da “Bíblia Sagrada” (católica), em que sublinhei as passagens para que quero chamar a vossa atenção.

 

1. No terceiro ano do reinado de Joaquim em Judá, Nabucodonosor, rei da Babilónia, foi até Jerusalém e cercou a cidade. 2. O Senhor entregou-lhe nas mãos Joaquim, rei de Judá, e parte dos objectos do Templo de Deus. Ele então levou tudo para a terra de Senaar e guardou os objectos na sala do tesouro do templo do seu deus. 3. Depois o rei deu ordem a Asfenez, chefe dos eunucos, para escolher, entre os israelitas da família real ou de outras famílias importantes, 4. alguns jovens sem nenhum defeito físico, de boa aparência, instruídos em toda a espécie de sabedoria, práticos em conhecimento, gente de ciência, capazes de servir na corte do rei; deu também ordem para que lhes ensinasse a literatura e a língua dos caldeus. 5. O próprio rei destinou-lhes uma ração diária da comida e do vinho da mesa real. Eles deveriam ser preparados durante três anos, e depois passariam a servir o rei. 6. Entre eles estavam Daniel, Ananias, Misael e Azarias, que eram judeus. 7. O chefe dos eunucos deu-lhes outros nomes: Daniel passou a chamar-se Baltassar; Ananias, Sidrac; Misael, Misac; e Azarias, Abdénago. 8. Daniel resolveu que não iria contaminar-se com as comidas e o vinho da mesa real. Pediu ao chefe dos eunucos permissão para não aceitar essas comidas. 9. O Senhor fez com que Daniel conquistasse a simpatia do chefe dos eunucos. 10. Este disse-lhe: «Tenho medo do rei, meu senhor, que determinou pessoalmente o que deveis comer e beber. Se ele perceber que os vossos rostos estão mais pálidos que os dos outros jovens da mesma idade, tornar-me-eis culpado de crime de morte aos olhos do rei».11. Daniel disse ao funcionário, a quem o chefe dos eunucos havia confiado Daniel, Ananias, Misael e Azarias: 12.«Faz uma experiência connosco: durante dez dias não nos dês a comer senão vegetais, e água a beber. 13. Depois, compara a nossa aparência com a dos outros jovens que comem da mesa do rei. Depois agirás connosco como achares melhor».14. O funcionário aceitou a proposta e fez a experiência durante dez dias. 15. No final dos dez dias, estavam com boa aparência e corpo mais saudável que todos os jovens que comiam da mesa do rei. 16. Então o funcionário tirou definitivamente a comida e o vinho da mesa dos jovens e passou a dar-lhes somente legumes. 17. Aos quatro jovens Deus concedeu o conhecimento e a compreensão de toda a literatura e também sabedoria. A Daniel especialmente, deu o dom de interpretar visões e sonhos. 18. Terminado o tempo que o rei havia fixado para os jovens serem apresentados, o chefe dos eunucos levou-os à presença de Nabucodonosor. 19. O rei conversou com eles e não encontrou ninguém melhor do que Daniel, Ananias, Misael e Azarias. E, a partir desse momento, entraram ao serviço do rei. 20. Por tudo o que procurou saber deles em termos de conhecimento e sabedoria, o rei achou que eram dez vezes mais capazes que todos os magos e adivinhos que havia no seu reino. 21. Daniel ficou ali até ao primeiro ano do reinado de Ciro.

 

Vemos que, ao contrário de Israel nas guerras da ocupação do território no tempo de Josué que, devido ao fanatismo religioso, exterminou todos os seus habitantes, a Babilónia, não tencionava matar os israelitas, mas transformar Israel numa colónia.

A Babilónia era uma civilização mais desenvolvida e penso que podemos meditar nestas passagens que nos dão preciosas informações sobre os métodos de colonização daquela época.

Certamente que Nabucodonosor, rei da Babilónia, bem sabia que não bastava conquistar para receber os tributos dos israelitas, pois assim Israel continuaria a ser um foco de tensões na luta constante para reconquistar a sua independência.

Nabucodonosor tinha os seus planos para colonizar Israel, integrando-a no seu grande império, como vemos nestes importantes pormenores que sublinhei e que muitas vezes nos passam despercebidos.                 

 

Podemos assim resumir os métodos de colonização da Babilónia, admitindo que esta amostragem seja significativa em relação aos outros povos que foram integrados no Império da Babilónia.

1) Escolher um grupo de jovens da aristocracia de Israel, para os educar na Babilónia, para que no futuro fossem os governantes de Israel fiéis à Babilónia.

2) Desligar esses jovens da cultura de Israel e integrá-los na cultura babilónica através dos seus hábitos alimentares e preparação cultural.

3) A língua que falavam tinha a mesma origem, pois Abraão saíra da Babilónia cerca do ano 1900 AC, mas já se tinham passado mais de 1300 anos até à época do Profeta Daniel, pelo que eles teriam de se dedicar à aprendizagem, não de novas línguas, mas somente da língua falada nessa época na Babilónia que passariam a utilizar com gradual esquecimento do hebraico de Israel dessa época. Embora os textos não mencionem, teriam certamente de aprender a teologia da Babilónia.

4) Até os seus próprios nomes foram alterados para que adquirissem uma nova personalidade integrada na cultura da Babilónia.

Normalmente, ao fim de alguns anos, eles já seriam culturalmente mais babilónicos do que israelitas, tanto mais, que a Babilónia, assim como o Egipto, eram as civilizações mais avançadas dessa época nesse local.

 

 

4. Ano 30. Época de João Batista e de Jesus Cristo

 

Como dissemos no nosso artigo João Batista (CC) cuja leitura aconselho (nomeadamente o capítulo 3 “Contexto histórico e cultural da época de João Batista” que a seguir transcrevemos), essa época é praticamente a mesma em que viveu Jesus o Cristo.

Israel já não era nação independente. Neste caso particular, a Judeia tornara-se numa província do Império Romano no ano 6, e Roma impunha as suas leis, embora fosse tolerante a ponto de manter em vigor a legislação dos vários países conquistados enquanto essa não colidisse com a Lei Romana.

Assim, o Sinédrio de Jerusalém, embora continuasse a funcionar como a mais alta representação política, jurídica e religiosa, aspectos que nem sempre é fácil de se dissociar nessa cultura, já não tinha a última palavra no aspecto jurídico.

O Império Romano, sempre que possível, tentava pacificar os territórios conquistados, mantendo os privilégios da classe dominante. Esse foi também o caso de Israel na época em que João Batista inicia a sua pregação.

Segundo nos conta o historiador Joaquim Jeremias, nessa época de dominação romana, época de João Batista e do próprio Jesus Cristo, embora a Judeia, e todo o território de Israel, estivesse dominado por Roma, os soberanos da dinastia herodiana, judeus de influência romana, viviam com um luxo indescritível. Tinham grandes palácios com arquitectura romana, mas mantiveram a sua fidelidade a algumas antigas tradições do oriente, nomeadamente a poligamia, pois tinham haréns que aliás eram permitidos pela Velha Lei de Moisés.

Herodes Antipas, rei da Judeia, era filho de Herodes o Grande, portanto da aristocracia de Israel, mas o pormenor mais importante é que tinha sido educado em Roma que além da Judeia lhe concedeu as tetrarquias da Galileia e da Pereia onde fundou a sua capital em Tiberíades. Embora israelita, mas com mistura de sangue, era um rei fiel a Roma que tinha sido tão generosa para ele. Mas o mais estranho é que, segundo alguns historiadores, sendo Herodes Antipas um rei israelita, a sua guarda pessoal era constituída por tropas trácias e germânicas, a que vieram juntar-se cerca de quatrocentos guardas gauleses da guarda pessoal de Cleópatra, depois desta se suicidar, pois o Rei da Judeia temia mais os seus súbditos do que os estrangeiros.

Mas ao falar em vida faustosa, não nos podemos limitar à aristocracia herodiana.

Os altos sacerdotes viviam em palácios na zona alta de Jerusalém, como aliás se vê nas passagens dos evangelhos que falam no julgamento de Cristo.

O Templo de Jerusalém fora reconstruído com uma grandeza e dimensões superiores ao antigo Templo de Salomão e estava a funcionar em pleno, embora a sua actuação estivesse limitada pela Lei Romana, como já referimos. O Templo perdera o “monopólio da religião”, mas continuava a ser o mais importante centro religioso em Israel e toda a vida económica da cidade estava relacionada com o seu Templo, onde continuavam a oferecer sacrifícios pelos pecados do povo, com todo o rigor da Velha Lei. Nenhuma outra religião atraía tantas multidões como o Templo de Jerusalém com a sua imponente liturgia, os mais famosos músicos e os melhores cantores que se tinham aperfeiçoado desde os tempos do Rei David. Também sob o aspecto político e teológico, o Templo era um elemento de união entre as várias seitas veterotestamentárias, em que os israelitas estavam divididos, devido às convicções religiosas, políticas ou profissionais, como os fariseus, saduceus, essénios, zelotes, galileus, herodiamos, publicanos, escribas etc. num contexto cultural em que não era fácil dissociar a religião da política ou dos interesses profissionais.

Além do Templo, havia as várias sinagogas em Jerusalém, assim como em todo o território do grande Império Romano, que competiam entre si pelo rigor dos seus cultos, pela sua música e pela santidade dos seus membros, embora com um conceito veterotestamentário de santidade, mais ligado à ideia de santidade litúrgica ou santidade higiénica e à santidade da sua genealogia. (Ver nosso artigo Santidade ao Senhor) Algumas das principais famílias de sacerdotes de Jerusalém, tinham até uma passagem superior ligando suas habitações ao Templo a fim de não se contaminarem em contacto com o povo pecador e impuro e sabiam de cor os nomes dos seus antepassados até dezenas de gerações o que comprovava a sua santidade.

Roma decidira manter os privilégios dos levitas e sacerdotes, nomeadamente na cobrança do dízimo, desde que tal não interferisse nos impostos arrecadados pelos publicanos ao seu serviço. Claro que o povo, sujeito a essa dupla tributação não tinha possibilidades de reagir nem tinha o apoio do seu rei nem das suas autoridades religiosas.

Claro que os principais pontos estratégicos ou de interesse comercial estavam controlados por Roma através dos publicanos ao seu serviço, e os grandes investimentos públicos seguiam uma lógica economicista e não teológica. Assim, Samaria que estava num vale fértil e muito produtivo, beneficiou duma via romana, ao contrário de Jerusalém que nunca teve uma via romana pois a cidade “apertada” dentro das suas muralhas, não tinha possibilidades de grande desenvolvimento. Jerusalém continuou sempre com as suas ruelas estreitas e sinuosas, enquanto as vias romanas davam continuidade às avenidas de Samaria, onde carros puxados por várias parelhas de cavalos conseguiam rodar 180 graus.

Era esta a situação religiosa na época de João Batista. Aparentemente, tudo estava perfeito, os rituais cumpriam-se com todo o rigor, e os sacerdotes eram nomeados de acordo com a Velha Lei. Eles tinham toda a autoridade para falar ao povo, mas… tinham perdido para sempre a sua credibilidade. Os dirigentes religiosos estavam completamente controlados por Roma, cegos pelos seus interesses económicos e não estavam nada interessados em mudanças, muito menos na vinda do Messias que poderia alterar a cómoda posição de que beneficiavam, com uma vida fácil e a paz com os romanos.

 

Podemos assim resumir os métodos da antiga Roma, para dominar as suas colónias.

1) Manter válida a Lei do país conquistado, enquanto esta não colidisse com a legislação do Império Romano a que estava subordinada.

2) Divulgação do Latim como língua oficial em todo o Império Romano.

3) Manter os privilégios da classe dominante, nomeadamente os aristocratas e clérigos em geral.

4) Educar em Roma, os jovens das famílias mais influentes, para serem os futuros governantes ao serviço do Império Romano, bem integrados na cultura romana.

 

 

5. Século XX – No Império Colonial Português

 

Também nos Impérios Coloniais do século passado se notam muitas semelhanças, com os dois exemplos de colonização já citados. Entre estes exemplos, posso citar o caso de Moçambique onde nasci. Sem pretender escrever história, mas mencionando simples experiências pessoais com a imparcialidade que um certo distanciamento no tempo nos permite e sem pretender, como diria Mia Couto “exaltar o colonizador em detrimento do colonizado, nem a valorizar o invadido com a demonização do invasor”.

A antiga aristocracia dos povos africanos antes da chegada dos europeus, era constituída pelos Régulos, autoridade ao mesmo tempo secular, que impunha as suas leis através dos seus sipaios (polícias tradicionais), como também autoridade religiosa e tradicional. Os Régulos, tinham autoridade sobre os Chefes das povoações.

Certamente que com a colonização, esta autoridade dos Régulos desapareceu, mas não por completo, pois o Governo Português logo compreendeu que não poderia governar nem pacificar territórios tão grandes se não fosse com a colaboração da tradicional aristocracia africana, os Régulos.

Assim, alguns régulos, que não se subjugaram à autoridade de Portugal, foram mortos ou destituídos das suas funções e nomeados outros em seus lugares, mas que tiveram de se adaptar às novas condições.

Em meados do século passado, data a que se refere a minha experiência pessoal, os Régulos, tinham alguns privilégios, embora poucos, pois sempre foram úteis para colaborar com o Governo Português. Eles conheciam o interior do país e o seu povo como mais ninguém. Exerciam cargos hereditários e eram facilmente identificados como Autoridade, pelo seu fardamento. Eram os régulos que forneciam os homens voluntários para as forças armadas e para o chibalo (b), recebendo em troca uma determinada quantia por cada elemento apresentado.

Também o Catolicismo colaborava com a colonização e tinha em contrapartida os privilégios que constam do “Acordo missionário de 1940” nomeadamente o seu artigo 9º e seguintes do referido “acordo missionário”, que podemos ler a seguir à Concordata de 1940 - Revogada em 2004, que ainda está na página do Vaticano na internet em Acordo missionário de 1940. Os missionários católicos tinham direitos equiparados aos dos funcionários do Governo Português nas suas colónias, e eram subsidiados pelo Governo Português.

Todas as missões dessa época, quer católicas como protestantes, tinham escolas onde a língua portuguesa foi divulgada, acabando por se tornar o elemento de união, não só entre colonos e povos colonizados, como entre todos os povos desses territórios que tinham dialetos diferentes. Actualmente, em Moçambique, fala-se mais português do que na época da sua independência e a língua portuguesa é a língua oficial, poderoso elemento de união entre todos os povos moçambicanos que os diferencia dos outros países vizinhos. O mesmo se passa nas outras antigas colónias de Portugal no continente africano e americano. 

Mas os privilégios da Igreja Católica também tiveram os seus aspectos bem negativos, pois não havia verdadeira liberdade de religião, os feiticeiros que eram a religião tradicional africana foram perseguidos, e as igrejas protestantes foram vítimas da má vontade e discriminação da parte das autoridades portuguesas. A liberdade e igualdade de religião em Moçambique, só foi possível com a sua independência. Actualmente as religiões tradicionais africanas no sul de Moçambique, os antigos feiticeiros e curandeiros num contexto cultural em que não é fácil distinguir quem é feiticeiro e quem é ervanário ou curandeiro, estão organizadas na AMETRAMO que se apresenta como (Associação dos Médicos Tradicionais de Moçambique), com dezenas de milhares de associados. Essa designação já teve os seus atritos com os verdadeiros médicos, assim como entre os próprios sócios da Ametramo. Poderá obter mais informação sobre este assunto se procurar a palavra “Ametramo” na internet.

 

Uma das recordações mais antigas que tenho da realidade do interior sul de Moçambique cerca do ano 1962, foi a seguinte:

Estava como aluno da Escola de Topografia e Agrimensura de Moçambique, que no segundo ciclo incluía um mínimo de seis meses de trabalho de campo no interior do território. Era a faze mais difícil desse curso, quando tínhamos de passar pelo menos seis meses em barracas de campanha, no interior de África, por vezes completamente isolados das povoações. Depois dum trabalho mais fácil, a demarcação da futura povoação do Dondo, perto da cidade da Beira onde só havia um restaurante à beira da estrada e mais dois ou três edifícios, fomos trabalhar em Vila Machado e Gondola. Depois de ter certa experiência nesses trabalhos tive de ir para uma zona mais isolada do interior da província de Sofala. Como estava perto dum Posto Administrativo, fui procurar o Chefe desse Posto, não só por estar a trabalhar no território dele, mas como era habitual nesse contexto histórico. Claro que o Chefe de Posto, que me recebeu em sua casa durante uns dias, ficou contente por falar com um jovem vindo da capital, numa época em que não havia TV para ver os noticiários.  

Ele estava a trabalhar no julgamento dos infractores da legislação. Eram pequenas infracções que geralmente eram punidas com alguns dias de trabalho. A certa altura chegou a vez dum jovem africano. Já não me lembro qual foi o delito que ele cometeu, mas o Chefe de Posto exclamou: “Ainda és um jovem e já estás nesse estado? Com todos estes registos na tua caderneta indígena (equivalia ao cartão do cidadão, ou carteira de identidade)?! Vou dar-te uma oportunidade.” Então diz aos sipaios: “Levem-no e apliquem quatro palmatoadas em cada mão.” Levaram o jovem, enquanto o julgamento continuou. Quando o trouxeram novamente, o Chefe de Posto, pega na caderneta indígena e à vista de todos, rasga-a e atira para o lixo, dizendo. “Vou dar-te uma nova caderneta indígena, sem nada escrito. És uma nova pessoa. Agora vê se te portas bem.”

Lembro-me também duma menina africana que entrou a chorar… Não percebi o que ela dizia, pois a língua era diferente das línguas do sul de Moçambique, onde nasci, mas compreendi que falava em escola. Então eu perguntei ao Chefe de Posto: “Ela não quer ir para a escola?” Ele respondeu-me: “É o contrário, ela não pode entrar na escola, pois temos poucos lugares e ela já tem idade a mais. Com a idade que tem, terá de ir trabalhar e já não tem idade para ir à escola”.

Então, exclama: “Pronto... vou resolver o problema. Nasceste dois anos mais tarde.” Também rasga a caderneta indígena e manda passar outra, alterando a data de nascimento.

 

Podemos resumir os principais métodos utilizados por Portugal para a integração da população de Moçambique no seguinte:

1) Manter, dentro de certos limites, os privilégios dos Régulos que estivessem dispostos a colaborar com Portugal, desde que estes se integrassem no novo contexto cultural.

2) Gradual integração das populações na cultura portuguesa, para o que havia três tipos de cidadãos:

Os que tinham o “bilhete de identidade” (actual cartão do cidadão) que eram os europeus e seus descendentes, assim como muitas outras raças, como indianos, chineses, árabes etc. a maior parte deles, já eram moçambicanos há várias gerações.

Os africanos tinham a “caderneta indígena” que lhes dava outras obrigações e também alguns privilégios. Posso citar como exemplo o direito de ocupar qualquer terreno que não tivesse dono (que era a maior parte dos terrenos), adquirindo assim o direito do seu trabalho de desbravar o terreno e o direito à habitação que construísse, mas não o direito ao terreno. Situação que aliás estava de acordo com as suas tradições.

Os assimilados. Quando um africano tinha certo nível de instrução, nível cultural e económico, podia requerer a situação de assimilado e passava a ser considerado como português de pleno direito, assim como os seus filhos e a partir dessa altura tinha o “bilhete de identidade”.  

3) Divulgação de língua portuguesa que, neste caso tanto foi benéfica para Portugal como para Moçambique, tornando-se elemento de união entre todos os povos moçambicanos. O mesmo aconteceu noutras colónias do continente africano e no Brasil e em certos aspectos, até no Oriente onde havia antigas civilizações já bem desenvolvidas, mas mesmo assim a língua portuguesa por vezes chegou a funcionar como elemento de união entre povos bem diferentes. Foi neste contexto histórico que João Ferreira de Almeida fez a primeira tradução completa da Bíblia para a língua portuguesa cerca do ano 1660, não em Portugal, mas em vários locais do Oriente. Grande parte dessa tradução foi efectuada na cidade de Colombo em Ceilão (actual Sri Lanka).

4) As missões religiosas, quer católicas (portuguesas ou estrangeiras) quer protestantes (quase todas as estrangeiras) tiveram papel importante na divulgação da língua portuguesa em Moçambique, que era uma das condições impostas pelo Governo Português para o funcionamento dessas missões.

 

 

6. Semelhanças nos métodos de colonização do passado

 

Tentando meditar no assunto com imparcialidade, podemos talvez afirmar que a colonização, embora fruto da ganância de alguns povos pelas riquezas, geralmente inexploradas, dos outros, teve os seus aspectos bem negativos, mas também não podemos negar certos aspectos positivos.

O que era Portugal, antes da civilização nos ter chegado através da colonização romana? E que dizer do Brasil, ou dos países africanos de língua oficial portuguesa antes da época da colonização?

Também podemos perguntar o que seria de Israel se a civilização não tivesse chegado pela colonização romana? Se Israel se mantivesse isolado de todos os incircuncisos, de acordo com a velha Lei de Moisés, certamente que ainda estariam a aplicar a pena de morte a quem trabalhasse num dia de sábado Êxodo 31:13/15, com apedrejamento popular e ainda estaria válida a escravatura em Israel, assim como a pena de morte para quem não fosse circuncidado Génesis 17:12/14, de acordo com o Velho Testamento.

 

Pelo que dissemos até aqui, comparando a colonização na época do Profeta Daniel (ano 570AC), na época de João Batista (ano 30), e em meados do século passado (ano 1960), noto algumas semelhanças.

 

1) Exército

A força das armas foi utilizada de início, mas parece que só pela violência nunca seria possível manter uma colónia, pois a guerra sempre foi prejudicial tanto para vencidos como para vencedores. Se a principal finalidade da colonização era económica, nunca poderia haver vantagens económicas enquanto a guerra não terminasse.

 

2) Apoio da classe dominante

Em todos os casos de colonização que examinámos, o colonizador procurou pacificar os territórios, logo que possível, procurando o apoio da antiga classe dominante (aristocratas e clérigos). Tanto foi esse o caso da Babilónia ao educar alguns dos jovens das principais famílias de Israel na cultura babilónica, como o caso de Roma ao educar os descendentes dos reis de Israel em Roma, como no caso do Império Colonial Português nos seus contactos com os Régulos de Moçambique.

 

3) Comércio

Logo nos primeiros contactos com os povos, descobertos ou conquistados, começam as trocas comerciais. Certamente que da nossa perspectiva, somos tentados a dizer que essas trocas eram sempre favoráveis ao país colonizador. Mas não sei como atribuir o valor de determinado produto em certo local e época da história. Lembro-me de que cerca do ano 1965, bem no interior do planalto de Lichinga, quando trabalhava em topografia e fiz a planta, ou o levantamento topográfico da aldeia de Mataca, antes de haver estradas para esse local.

Já sabia, quando saí de Lichinga (nessa época era Vila Cabral), que se tencionasse comprar alguma coisa, o povo não aceitava dinheiro, pois não havia comércio nessa zona. Em vez de dinheiro levei uns sacos de sal. Trocava uma chávena de sal por uma galinha, com a sensação de que os estava a enganar e eles também tinham a mesma sensação de me enganarem, pois num terreno tão fértil, tinham muitas galinhas, cabras, bois e vacas, mas estavam a muitas centenas de quilómetros do mar, e para obter sal teriam de ir muito longe, até onde houvesse comércio. 

 

4) Cultura

Outro aspecto da máxima importância, comum em todos estes casos é a língua. Logo nos primeiros contactos é utilizada a língua do país colonizador e só são válidos ou pelo menos mais valorizados os documentos escritos nessa língua, que em muitos casos era a única hipótese possível, quando o colonizador europeu contactou com outros povos no Continente Americano e na maior parte do Continente Africano, povos que não tinham língua escrita.

Tanto a Babilónia teve a preocupação de ensinar a Daniel e seus companheiros a língua e cultura da Babilónia, como Roma difundiu o latim em todo o seu Império, assim como Portugal ensinou a nossa língua não só em todo o seu Império Colonial, como até nos países com quem contactou.

Nos séculos passados, os vários países disputavam o ensino das suas línguas nas suas colónias.

Mencionamos a língua por ser o aspecto cultural mais importante, mas há outros aspectos como os hábitos alimentares, vestuário, religião, ou religiões… Duma maneira geral, a cultura define o que é um povo. Na Índia, nomeadamente no caso de Goa, onde funcionou um Tribunal da Inquisição, a religião teve grande importância na ocupação do território por Portugal, como afirmo na primeira parte do artigo Encontro de religiões (Diversos)  

 

 

7. Conclusão           

7.1 Métodos de colonização em geral

 

Bem sei que muitos dos leitores não me perdoariam se depois de apresentar estes apontamentos um tanto desorganizados sobre um assunto que não é propriamente o principal objectivo da minha página, não colocasse algumas referências à “colonização” nos nossos dias.

Na verdade, o objectivo da minha página é a livre reflexão teológica, mas a teologia não pode fechar-se comodamente no seu “castelo de marfim”, indiferente a tudo que nos rodeia. Esse tem sido o grande problema que tornou a teologia irrelevante para o homem dos nossos dias e que não corresponde ao exemplo de Jesus que não prescindiu de abordar os problemas sociais do sei tempo.

Assim, procuraremos levantar algumas questões que nos ajudem a reflectir sobre a realidade deste início do Século XXI, com realismo e imparcialidade.

Em certos aspectos, é mais difícil compreender e falar do presente, pois as informações do passado são mais reduzidas e já foram de certa maneira seleccionadas e trabalhadas pelos historiadores na sua busca da verdade, enquanto sobre o presente, temos excesso de informação, por vezes contraditória, nem sempre credível, outras vezes tendenciosa e geralmente são “verdades parciais” com a intenção de alterar a nossa compreensão da realidade em que vivemos.

Será possível compreender alguma coisa do presente com a experiência do passado?

 

No mundo em que vivemos, as fronteiras políticas, raciais e culturais entre os vários países, estão cada vez mais esbatidas, mas isso não significa que tenhamos um mundo mais fraterno, pois aumentou o desnível social e económico dentro dos vários países e entre os vários estratos da sua população.

Viver num país rico, já nem sempre significa ter melhor nível de vida. Por vezes, é nos países mais ricos onde encontramos os mais pobres, nomeadamente em países africanos. Será que bastou substituir a exploração do colonizador pela exploração dos governantes do próprio país?!

Será que as colónias acabaram? Ou os colonizadores foram substituídos pelos grandes grupos económicos? Actualmente os colonizadores já não são um país, mas um grupo de privilegiados que controla a maior parte dos países, pois o capital não tem pátria.

Quando falamos em países ricos e países pobres, em que estamos a pensar? E quando lá vamos em visita, o que nos mostram? Têm a amabilidade de nos mostrar como vivem os seus ricos? Ou também nos mostram como vivem os pobres?

Talvez tenhamos de dar um novo significado à palavra “colónia” incluindo os países que são politicamente independentes, mas é uma independência política que não funciona por não terem uma independência financeira, sendo na prática o Governo do país livre, “governado” pelas potências estrangeiras, nomeadamente pelo grande capital.

 

Mas, quais os principais métodos de “colonização” dos nossos dias?

 

1) Cultura

Parece incrível, mas geralmente começam pela parte cultural contra a qual poucos reagem e esses são os métodos que a Babilónia já utilizava no ano 570 AC.

Actualmente é mais fácil através dos órgãos de informação a divulgação de hábitos culturais, pela propaganda comercial, quer se trate de alimentos, vestuário, modas, e também o mais importante, a língua que falamos. Como diria o linguista brasileiro Napoleão Mendes de Almeida, “A língua é a mais viva expressão da nacionalidade. Como havemos de querer que respeitem a nossa nacionalidade se somos os primeiros a descuidar daquilo que a exprime e representa o idioma pátrio”.

Noto nos canais de TV disponíveis nas nossas televisões em Portugal, uma oferta exagerada de filmes e noticiários em inglês, de qualidade duvidosa, enquanto os filmes em italiano, francês, espanhol, alemão etc, praticamente desapareceram, para não mencionar os filmes feitos no Oriente. Parece que há uma certa barreira, não sei se cultural, política ou comercial que nos impinge a língua e cultura norte-americana, que faz lembrar o que aconteceu no século passado em que cada colonizador tentava divulgar a sua cultura nas suas colónias impedindo que outras línguas fossem divulgadas. 

Vemos por vezes, nos programas culturais internacionais através da TV, o representante da França falar em francês, o da Inglaterra em inglês, o do Brasil em português, o da Alemanha em alemão e o de Portugal em inglês!!!! Julgo que há uma certa tendência em nos identificarmos com alguma grande potência, que vem deste o início da História de Portugal, quando o nosso primeiro Rei, depois de proclamar a independência de Portugal, colocou em dúvida essa independência quando se declarou vassalo do Papa.

Certamente que falar várias línguas é cultura geral, mas falar só uma língua estrangeira é subserviência cultural que teve o seu ponto mais alto quando se tornou obrigatório o ensino do inglês nas escolas primárias, quando as crianças estão a aprender e a aperfeiçoar a sua língua materna, verdadeiro atentado cultural do nosso Governo anterior. (c)

Assistimos actualmente em Portugal, aos abundantes estrangeirismos (quase todos da língua inglesa) que entram na nossa língua através dos nossos canais de TV, incluindo a RTP, enquanto se diminuem as verbas para as Universidades e são suprimidos alguns dos feriados relacionados com a nossa história e tradição.

 

Na cultura, incluo também a religião como método de colonização, principalmente quando a direcção da igreja ou religião se encontra no estrangeiro e não em território nacional e os seus fiéis são “comandados” do exterior, por estrangeiros, como aconteceu em quase todas as colónias em que a religião do colonizador tinha os seus privilégios e até perseguia as outras religiões. Mas há igrejas, nomeadamente no Brasil, que embora sendo “nacionais”, são fortemente influenciadas do exterior, como é o caso da maior parte das igrejas evangélicas em que os teólogos norte-americanos têm muito mais influência do que teólogos brasileiros. Isso nota-se perfeitamente ao entrar em qualquer livraria dita evangélica, pois a grande maioria dos livros são traduções de literatura americana defendendo uma política de direita favorável ao imperialismo norte-americano. A maior parte das revistas de escola bíblica dominical são traduzidas de revistas americanas e até as traduções da Bíblia efectuadas a partir do inglês são mais utilizadas do que as traduções a partir das cópias dos originais em grego e hebraico!!! Não encontrei no Brasil a tradução BPT da Sociedade Bíblica de Portugal, directamente das cópias dos originais em colaboração com todas as denominações, inclusive a Igreja Católica.   

Enquanto muitos católicos já têm dúvidas sobre a infalibilidade do seu dirigente máximo em Roma, grande parte dos evangélicos brasileiros seguem o dirigente das suas igrejas que consideram “quase infalível” com uma religiosidade alienante, e até sonham eleger um Presidente evangélico. Não sou brasileiro, mas não posso ficar indiferente ao que se passa no maior país de língua portuguesa e não gostaria que houvesse no Brasil a mesma “transparência”, a mesma “liberdade de pensamento” e de expressão que vejo na maior parte das igrejas que se apresentam como evangélicas.   

Há muitos casos em que a religião e a língua estão intimamente relacionadas. Costuma-se dar muita ênfase à conversão tipo de “suicídio intelectual” de que resulta um “novo homem” passivo seguidor dos seus dirigentes, como se Deus prescindisse da nossa capacidade intelectual, o maior dom que nos concedeu. Em certas igrejas evangélicas, falar mau português, com termos americanos à mistura, é sintoma de espiritualidade. Nesse aspecto, os católicos portugueses ou brasileiros, pelo menos culturalmente, são mais portugueses ou mais brasileiros que a maior parte dos evangélicos. Será que se pode falar em colonização teológica dos evangélicos brasileiros?!

 

2) Economia.

O colonizador apropria-se por intermédio das classes dominantes, das principais fontes de receita. O mais cobiçado nos nossos dias é o petróleo. Claro que as classes dominantes recebem a sua percentagem pois, tal como na antiguidade, surge sempre uma nova classe de nacionais ao serviço do colonizador que, muito pouco ou nada tem em comum com os cidadãos que dizem servir. Claro que essa classe tem o apoio do grande capital, beneficia de vencimentos superiores aos dos trabalhadores, vencimentos que atribuem a eles mesmos, têm aposentação com menos tempo de serviço e não podem ser responsabilizados pelas suas decisões. 

 

3) Órgãos de informação

Além das principais fontes de receita, o colonizador também se apropria dos órgãos de informação, assumindo assim o controle ou pelo menos grande influência na opinião pública, embora nos nossos dias, com a rádio, TV e internet, que não respeitam as fronteiras entre os vários países, seja cada vez mais difícil o controlar a opinião pública desde que o povo tenha certo nível cultural que o leve a questionar toda a informação que recebe.

Não só Portugal, mas a Comunidade Europeia duma maneira geral, está a ser demasiado influenciada pela informação do outro lado do Atlântico. Um dos exemplos é a influência das agências de crédito norte-americanas que já têm prejudicado Portugal e outros países da Comunidade Europeia.

 

 

Portugal

Espanha

América

Brasil

Moody’s

Ba3

Baa3

Aaa

Baa2

Fitch

BB

BBB

AAA

BBB

Dagong

BBB

A

A

A

 

Será que se podem levar a sério as informações que os americanos dão do seu próprio país, atribuindo a nota máximo AAA sendo um país com uma grande dívida externa e uma moeda que não tem cobertura em ouro?!

Penso que mais credível é a avaliação da agência chinesa Dagong que atribui a Portugal a classificação BBB, bem próxima da A que é a classificação da Espanha, Brasil e da própria América.

 

4) Governantes ao serviço do colonizador

Em quase todos estes exemplos de métodos de colonização, surge uma classe social ou profissional dos privilegiados ao serviço do colonizador.

No tempo de Cristo eram os publicanos, judeus cobradores de impostos ao serviço do Império Romano. Nos nossos dias também são uma realidade, embora não tenhamos uma palava para os designar. Mas no português de Moçambique, o semanário informático moçambicano Verdade, já inventou a palavra “Xiconhoca” e todas as semanas os seus leitores elegem o “Xiconhoca da semana” que geralmente é algum dos seus políticos ou governantes como podem ver em alguns dos últimos Xicohocas. Certamente que isso ainda é válido nos nossos dias. Os publicanos do tempo de Cristo tiveram vários nomes através dos tempos, mas a situação é praticamente a mesma.

 

5) Forças armadas

Em qualquer país que perder a sua cultura em primeiro lugar e também a sua independência financeira, já para nada servirão as suas forças armadas que nessa altura já estarão certamente tão ultrapassadas, desprestigiadas, humilhadas, desmotivadas que nunca poderão resolver um problema para que não estão vocacionadas. Esse país já será mais uma colónia conquistada pacificamente.  

 

Será que as colónias acabaram? Parece fácil responder que a colonização foi coisa do passado. Certamente que no Oriente, as antigas colónias são agora os poderosos países emergentes e alguns deles apresentam os maiores índices de crescimento dos nossos dias. Mas também há muitos casos em que a independência se limitou à substituição do colonizador por elementos autóctones que vivem sem a mínima identificação com os povos que dizem servir.

Será que o colonialismo acabou nos nossos dias, pelo facto de se terem esbatido as fronteiras entre os vários países? Ou estaremos perante novas formas de colonialismo que no fundo não é tão diferente do que tem acontecido desde há milénios?

 

 

7.2 O nosso caso em Portugal

 

Em quase todos estes exemplos de métodos de colonização, surge uma classe social ou profissional dos privilegiados ao serviço do colonizador.

Será que podemos identificar essa classe nos nossos dias e no nosso país? A classe dos profissionais que veio substituir os antigos aristocratas e/ou clérigos ao serviço do colonizador que encontramos nesses exemplos do passado?

 

Examinando o que se passa com os nossos funcionários públicos, bancários, banqueiros (d), magistrados, militares, políticos, governantes, professores, gestores públicos etc. Podemos colocar as seguintes questões:

Quais os que ainda mantêm os seus privilégios intocáveis?

Quais os que têm vencimentos bem acima das outras profissões?

Quais os que têm pensões de aposentação com muito menor tempo de trabalho?

Quais os que não viram o seu número reduzido para diminui o seu peso nas finanças públicas?

Quais os mais desastrados nas suas decisões que em vez de serem punidos, ainda recebem os seus prémios de produtividade?

Quais as organizações que têm recebido escandalosas ajudas económicas?

Quais as organizações que têm recebido ajuda financeira a juros mais baixos enquanto outras, que não o conseguem, vão à falência?

Quais os que têm todo o apoio do grande capital para os seus privilégios?

 

Esta resposta compete a cada um de nós que constituímos o povo português.

Mas o mesmo poderei dizer do povo moçambicano, ou angolano, brasileiro etc, nos seus respectivos países.

 

Camilo – Marinha Grande, Portugal

Fevereiro de 2013

 

 

 

(a) Não podemos deixar de relacionar estas passagens do Velho Testamento, com a história dos EUA, em que uma grande percentagem dos seus primeiros colonos era evangélica fundamentalista que considerava toda a Bíblia como inspirada e normativa. Não se sabe ao certo, qual a população de índios na América do Norte quando chegaram os primeiros colonos.

Segundo o etnólogo americano Ward Churchill, havia mais de 25 milhões de índios Genocídio nos Estados Unidos. Outros estudiosos do assunto falam em 75 milhões Extermínio Dos Nativos Norte-Americanos antes da chegada dos colonos norte-americanos. Depois das chamadas guerras indígenas (1778 a 1890) os índios ficaram reduzidos a 2 milhões, estimativa em que parece haver acordo entre os vários estudiosos no assunto. Devemos estar perante o maior genocídio da História Universal, do qual pouco se fala. Será que os primeiros colonos foram inspirados no exemplo de Josué?!

(b) Chibalo era o meio-termo entre o escravo e o homem livre. Oficialmente era o “voluntário” obrigado ou pressionado para determinados trabalhos.

(c) Certamente que o mundo necessita duma numeração internacional e duma escrita internacional. O problema da numeração internacional, está praticamente resolvido com a numeração ideográfica árabe que foi aceite, não só em toda a Europa que praticamente abandonou a sua antiga numeração, a numeração romana, como o mesmo aconteceu nas grandes culturas do Oriente como a Índia, China, Japão etc. que também aceitaram a numeração árabe. Quanto à escrita internacional, aconselho a leitura do meu artigo Escrita universal (CC)

(d) Considero bancário o trabalhador do banco e banqueiro o seu patrão, dono do banco.

 

Literatura consultada:

Várias traduções da Bíblia

Diversa legislação

Jerusalém no tempo de Jesus – De Joaquim Jeremias, Edições Paulinas,

 

 

Todos os comentários, para eventual publicação, deverão ser enviados para camilocoe@gmail.com

 

Estudos bíblicos sem fronteiras teológicas

 

 

 

Comentários recebidos

 

 

 

Carlos Aragão - Gestor moçambicano - maluar@tvcabo.co.mz  

Director do Departamento de Documentação do Banco de Moçambique.

 

O Xiconhoca é uma espécie de “amigo da onça” à moçambicana.

É uma caricatura concebida pelo Departamento de Trabalho Ideológico da FRELIMO pelo artista plástico João José Craveirinha – filho do falecido poeta João Craveirinha – para denotar uma pessoa ou personalidade conotada com os maus hábitos e a cultura do antigamente da Vida do Colonialismo, incluindo vícios socialmente condenáveis – alcoólico, mulherengo, ladrão, pilha galinhas, burocrata, politicamente reacionário ou de ideias retrógradas.

É o oposto do Homem Novo que o Socialismo e a Revolução visavam construir.

Xiconhoca vem de Xico – um tipo de comportamento condenável, asqueroso, mais a adição da palavra “nhoca” que em muitas línguas de Moçambique significa cobra ou serpente.

Enfim, alguém com espirito retrógrado e anti-progressista ou contra-revolucionário.