Direito à heresia (CC)

(Deverá “clicar” nas referências bíblicas, para ter acesso aos textos)

 

 

 

Costumo dizer que na minha página da internet, a “Estudos bíblicos sem fronteiras teológicas”, não faço censura teológica à colaboração que recebo que seja fruto da meditação de quem a envia e respeito o “direito à heresia”, afirmação que tem escandalizado a muitos. (a)

Vejo que recentemente o Pastor brasileiro Ricardo Gondim foi considerado “Pastor herege” numa entrevista da revista brasileira CartaCapital. 

Muitos certamente terão perguntado: Mas o que é propriamente a heresia ou o herege?

 

Certamente que esta afirmação de que respeito o direito à heresia, poderá parecer uma afirmação escandalosa para quem não conhecer o significado etimológico dessa palavra “heresia”, que deriva da palavra grega “hairesis”, que por sua vez deu “haerésis” em latim, palavras que significam escolha, geralmente escolha por voto, preferência, inclinação, preferência por uma doutrina, escolha filosófica, religiosa, política etc.

Assim, parece-me que a semântica que esta palavra adquiriu, designando algum crime altamente condenável, só será possível em ambientes onde não haja liberdade de pensamento nem liberdade de expressão, o que infelizmente acontece em muitos ambientes religiosos, nomeadamente de religiões monoteístas.

Talvez a origem desta atitude intransigente, e por vezes até agressiva, esteja na primeira parte da Bíblia, no Velho Testamento, que muitos consideram inspirado e normativo para os nossos dias, que apresenta um ambiente em que não há liberdade de pensamento nem liberdade de expressão.

De acordo com Levítico 24:16 Quem injuriar o nome do SENHOR é réu de norte; toda a comunidade deve apedrejá-lo até morrer. Seja ele estrangeiro ou seja israelita, se ofendeu a Deus, tem de morrer. (Tradução da BPT) Certamente que qualquer outra ideia religiosa seria considerada blasfémia ou injúria.

Também não havia liberdade de religião, pois de acordo com Êxodo22:20 (nalgumas traduções é o vr. 19) Aquele que oferecer sacrifícios a outros deuses, em vez de os oferecer somente ao Senhor, será condenado à morte. (Tradução da BPT) Assim, o culto de qualquer outra religião era punido com a pena de morte.

Claro que esta mentalidade veterotestamentária influencia todas as religiões que aceitam toda a Bíblia, do Génesis ao Apocalipse, como inspirada, inerrante, eterna, imutável e normativa para os nossos dias. 

Também me considero um herege em relação aos cristãos de maneira geral, pois aceito somente o Novo Testamento como normativo para os cristãos. Claro que não podemos ignorar o Velho Testamento, mas somente como livro histórico. Se me recuso a cumprir as Leis do Velho Testamento que muitos afirmam serem também normativas para os cristãos, então também sou um herege por nesse ponto me afastar da posição mais ortodoxa dos cristãos.

Mas também Jesus Cristo em Mateus 5:21/48 ao rejeitar e alterar muitas das leis veterotestamentárias, também se tornou herege em relação do judaísmo.

Penso que é uma questão de perspectiva, pois para qualquer religião, todas as outras são injuriosas, heréticas ou são blasfémias devido às diferenças.

 

Esta minha página na internet, a “Estudos bíblicos sem fronteiras teológicas”, não é página de evangelização. Já há demasiadas páginas de evangelização na internet e muito poucas que estejam vocacionadas para a livre investigação teológica.

Já tenho recebido mensagens em que me dizem: Li os artigos que tem na sua página, sobre os mais variados assuntos apresentando posições diversas sobre o mesmo assunto. Mas afinal, qual é a sua posição teológica?

Compreendo esta pergunta, mas se tenho colaboradores, alguns deles que já foram Professores de Seminário, que convidei a escrever sobre o mesmo assunto defendendo posições divergentes, que interessa a opinião dum leigo como eu?! A esses, geralmente respondo por mensagens particulares.

Como já afirmei, a minha página não é página de evangelização. Não se destina a divulgar a minha posição teológica, mas a fornecer alguma informação sobre os vários assuntos para que cada um possa tomar conscientemente a sua posição.

Dito doutra maneira, não tenho esta página na internet para “Vender o meu peixe”. (Não sei se esta expressão, muito usada no português de Portugal e em África, será aceitável no Brasil). Refiro-me ao caso das varinas ou vendedoras de peixe pelo sistema tradicional que apregoam bem alto para divulgar o seu peixe que certamente é sempre o mais fresco, o melhor, o mais saboroso etc. etc. Prefiro que a minha página seja como uma secção de venda de peixe dum grande supermercado onde ninguém apregoa o seu produto, mas uma grande diversidade de peixe está disponível, à vista de todos, para que os clientes possam ver e escolher o que querem levar.

Geralmente as páginas evangélicas na internet são como as varinas isoladas, assim como os pastores. Fazem muito barulho, mas têm pouca informação e só mostram a sua doutrina que tentam elogiar encobrindo as outras doutrinas ou fornecendo informação falsa ou tendenciosa sobre as outras igrejas ou outras religiões.

Quero ainda lembrar que, através dos tempos, muitos hereges foram perseguidos, exilados ou mortos pelos cristãos, devido a esta semântica que a palavra “heresia” adquiriu num contexto de religião, com base em passagens veterotestamentárias onde havia a pena de morte pelos mais variados motivos, com manifesto desprezo pela vida humana que Jesus se recusou a aceitar.

 

Certamente que respeitar uma heresia não significa aceitá-la. Qualquer heresia deve ser examinada e questionada, assim como a ortodoxia que muitas vezes aceitamos por uma questão de tradição sem nunca questionar a sua veracidade.

Quando utilizamos a censura ou meios violentos para abafar alguma ideia, geralmente significa que nos faltam argumentos válidos para a combater.

Numa sociedade livre e esclarecida, não só a verdade tem direitos. O erro, também tem os seus direitos.

Quando se fala no Tribunal da Inquisição, certamente que todos nós, nomeadamente os irmãos católicos, rejeitam os métodos que utilizava, mas isso não é suficiente. Mais importante do que condenar os inquisidores, será compreender o seu pensamento, pois possivelmente muitos deles eram pessoas bem intencionadas que foram vítimas da sua preparação teológica, pois a teologia do seu tempo afirmava que: “Só a Verdade tem direitos… e como só nós temos a Verdade…”

Não pensem que isto é coisa do passado. O problema continua bem vivo como podem ver no meu artigo Fundamentalismo e liberdade religiosa (CC)

Já é tempo de recuperar o significado original dessa palavra “heresia”, pois onde houver reflexão teológica, haverá certamente heresias. O pior que pode acontecer às igrejas é que não haja heresias, o que só acontece quando já não há mais reflexão teológica nem liberdade de expressão.

Que Cristo possa continuar a ser o nosso Único Mestre.

 

 

 

(a). É verdade, que por vezes, me vejo obrigado a fazer um certo “controle de qualidade”, quando recebo artigos para eventual colaboração. Geralmente são artigos enviados por jovens que se limitam a repetir o que aprenderam na igreja ou no seminário, sem qualquer reflexão pessoal, ou artigos muito ingénuos, ou artigos com linguagem imprópria ou insultuosa, ou que pretendem servir-se da minha página para divulgar doutrinas da sua denominação, pois não é esse o objectivo desta página na internet.

Só aceito, sem fazer censura teológica, quando forem artigos escritos pelos próprios que os enviam, que sejam fruto da sua reflexão e/ou experiência pessoal.

 

Camilo – Marinha Grande, Portugal

Setembro de 2012

Estudos bíblicos sem fronteiras teológicas

 

NOTA: Quaisquer comentários, para eventual publicação, caso tenha alguma coisa a acrescentar, deverão ser enviados para camilocoe@gmail.com acompanhados da sua identificação (Nome, morada, igreja ou religião que professa, cargo que desempenha na sua igreja ou religião, data de nascimento, profissão etc) caso ainda não seja colaborador desta página.

Não tenha receio de discordar, pois aqui há “espaço” para todos, desde que a sua mensagem esteja em linguagem correcta.  

 

 

 

 

 

COMENTÁRIOS

 

 

 

 

Glória Nogueira, Figueira da Foz - Portugal

Pregadora leiga da Igreja Evangélica Presbiteriana de Portugal.

 

Esses fundamentalistas, não seguem a vontade de Deus, pois são como os fariseus e os doutores da Lei no tempo de Jesus, que se preocupavam tanto com coisas que nem eram da Lei de Deus, mas não cumpriam a Sua vontade!

Parabéns pelo excelente texto com que me identifico e pela coragem deste espaço onde temos espaço!

Deus o abençoe!

 

 

 

 

Álvaro Querino de Moraes, Belo Horizonte - Brasil

Cristão, técnico em eletrotécnica, aposentado, nasceu em 1957

 

O cristianismo, como você e todas as pessoas coerentes, conscientes e bem-intencionadas sabem, não foi criado por Cristo, não tem o espírito, nem o Espírito, de Cristo. A vaidade e o capricho humano, são os responsáveis por essa hidra. Constantino I, usando de sua prerrogativa e poder, o oficializou, pois lhe era pragmaticamente conveniente.

Eu penso Deus, totalmente atento ao expressar sincero do ser humano. Ele odeia a hipocrisia, a mentira, a falsidade, a bajulação, a traição, a infidelidade, coisas tão comuns e até ensinadas como necessárias a quem quer se dar bem na sociedade hodierna, e a chamada “igreja”, está nisto até o pescoço, e porque não dizer, até por cima da cabeça.

Os religiosos, as lideranças da religião, chamada cristã, sejam evangélicos, católicos, ou qualquer outro, detestam quem discorda deles, quem atinge sua zona de conforto. Na Idade Média, a Inquisição Católica matava o corpo, mas não matava a alma. Veio a Reforma, mas só foi feito dieta de santos, os fundamentos continuaram os mesmos. Henrique VIII, só mudou o eixo do poder, mas jogou o mesmo jogo.

Mas graças a Deus, por Jesus Cristo, nosso sumo Pastor, Deus incarnado, que nos ensina o que é a verdadeira religação ao Pai. A verdadeira religião: Cuidar dos órfãos e das viúvas, é o que menos interessa aos evangélicos, pelo menos aqui no Brasil. Deixam isto para os heréticos Espíritas.

 

 

 

 

Osni de Figueiredo São Paulo, Brasil.

 

Sua posição remete ao filósofo iluminista Voltaire que cunhou a célebre máxima “Posso não concordar com nenhuma das palavras que você diz, mas defenderei até a morte seu direito de dizê-la.

Vejo com muito interesse esta postura num meio religioso viciado onde conveniências ditam doutrinas e favoritismo geram verdades.

Entendo que para fugir da manipulação e massificação que é inerente as religiões há que se prover de diversidade de opiniões a fim de obter uma visão mais ampla das coisas.

Muito dos “estudos” que aqui no Brasil eu vejo são induções (raciocínio que vai do particular ao geral) onde são parabenizados quem assimila e reproduz seus ensinos e cerceados os que não se convencem deles.