Vinho na Santa Ceia (CC)

(Clicar nas referências sublinhadas para ter acesso aos textos)

 

 

I - INTRODUÇÃO

 

Em relação ao meu artigo Vinho, o crente pode beber?  (CC), recebi em 2009/12/29, a seguinte mensagem dum Pastor dum Estado da América do Norte:

 

Assunto: VINHO NA SANTA CEIA

Olá como vai? Li sua matéria na internet sobre que Jesus utilizou do Oinos fermentado para celebrar a Páscoa.

Aqui vai a minha pergunta para o senhor que se mostrou um tanto quanto entendido no assunto, poderia Jesus utilizar do vinho fermentado uma vez que Ele mesmo como Deus ordenou a Moisés que não usasse vinho fermentado para a Celebracao da Pascoa?

A lei da Páscoa em Êx 12.14-20 proibia, durante a semana daquele evento, a presença de seor (Êx 12.15), palavra hebraica para fermento ou qualquer agente fermentador. Aguardo resposta.

 

Embora vinda dos Estados Unidos da América, esta mensagem está em português e o remetente tem nome português. Não sei se será algum pastor americano descendente de portugueses ou brasileiros, ou mesmo algum pastor brasileiro na América.

Respondi pedindo que se identificasse e me desse alguma informação da sua igreja e da sua preparação cultural e teológica, mas nunca mais me respondeu apesar de eu ter insistido numa resposta.

Penso que este assunto já foi abordado no meu artigo sobre o vinho, na passagem que vou transcrever:

 

Outro argumento utilizado para “provar” que na Ceia do Senhor não foi utilizado vinho, mas somente o mosto, que teria de ser conservado desde a vindima do ano anterior, pois esta se fazia em Agosto e Setembro e eles estavam na época da Páscoa (14 de Abib) que corresponde aos meses de Abril ou Maio, é o facto de Êxodo 12:14/30 proibir que, nesses sete dias da festa pascal, houvesse fermento nas casas dos judeus. Este argumento, não toma em consideração a época e a cultura, pois fermentação do vinho, nunca na Bíblia foi considerada como fermento e o contexto desses versículos mostram claramente que toda a ênfase é colocada nos pães asmos. Quem comesse pão levedado na época da Páscoa, de acordo com o versículo 15, seria “cortado” ou “eliminado” de Israel, uma forma de se referir à pena de morte. Mas ao aceitar este argumento como válido, então teríamos principalmente de rejeitar a utilização do vulgar pão, nos nossos cultos de Ceia do Senhor, para passar a utilizar a hóstia, como fazem os católicos. É verdade que o Antigo Testamento por vezes fala no fermento associando-o à impureza e ao pecado, mas Jesus não deu apoio a esta velha ideia sobre o fermento, quando em Mateus 13:33 compara o próprio Reino de Deus com um pouco de fermento. Penso que isso é um bom passatempo para os “fariseus” dos nossos dias que ainda não compreenderam que a mensagem de Jesus não está subordinada à mentalidade veterotestamentária, pois muitos critérios foram anulados ou profundamente alterados, e a Ceia Senhor não é uma comemoração da Páscoa judaica: Não se fala do cordeiro pascal e os elementos centrais são o pão e o vinho. Mas há outra profunda diferença. É que a morte, o cadáver, que era o máximo de impureza, em especial em Levítico, que tornava impuro quem nele tocasse, passa a ser fonte de bênção e de vida, passa a ser o único caminho para Deus.

 

No entanto, pensando se seriam possíveis mais alguns esclarecimentos para ajudar alguns evangélicos brasileiros que se tentam libertar das tradições e rituais que os antigos missionários evangélicos norte-americanos, levaram para o Brasil e que lhes “ensinaram” que Jesus nunca bebeu vinho, vou publicar as seguintes passagens da mensagem que era para enviar a esse pastor americano, se ele se identificasse, como lhe pedi. Espero que ele também leia este artigo.

 

1 - Em primeiro lugar vamos examinar a sua pergunta:

Vejo que utiliza expressões incorrectas em bom português e pior ainda em grego, quando fala em “vinho fermentado” e “oinos fermentado”, o que talvez seja devido ao facto de não conhecer a língua grega, de viver na América e se ter afastado dos bons falantes da nossa língua.

A Grécia, ao contrário da América ou do Brasil, desde os tempos da antiguidade já era um país de forte tradição vinícola, tal como Portugal, Espanha, sul da França etc. não esquecendo o Israel da antiguidade, onde as palavras têm os seus significados bem definidos, que temos de respeitar, pois se não dermos às palavra o seu correcto significado, tudo se pode “provar”. Tanto mais quando os crentes afirmam aceitar a inerrância bíblica, não lhes fica bem colocar em dúvida o que está nas antigas cópias dos textos originais.

Assim, Vamos assentar as ideias:

Oinos em grego é vinho em português. Quem tiver dúvidas, que veja no dicionário ou pergunte a alguém que conheça a língua grega.

Vinho em português é o produto que se obtêm do mosto, depois deste ser sujeito à fermentação.

A palavra mosto, (gleukos em grego) que é um termo um tanto técnico, significa o mesmo que sumo de uva ou suco de uva (expressão mais utilizada no português do Brasil). São palavras bem diferentes, tanto no grego como na língua portuguesa. 

Por vezes, ao estudar a Bíblia, quando estamos perante palavras com vários significados, ou numa tradução perante vários sinónimos com ligeiras diferenças, temos de ponderar qual a tradução mais correcta. Mas não é este o caso da tradução da palavra oinos, que na nossa língua tem só uma tradução possível.

Penso que a sua “dúvida” não é uma dúvida legítima, mas uma tentativa de deturpar os evangelhos para manter a sua lealdade à tradição norte-americana. Se houvesse outra tradução possível para a palavra grega oinos, certamente que o dicionário de grego nos diria.

 

2 – Foi Jesus que ordenou a Moisés que não usasse vinho mas sumo ou suco de uva na comemoração da Páscoa judaica? Nas passagens que menciona, não vejo qualquer referência a Jesus. Mas pode ser que se refira ao facto de que, sendo Cristo uma das pessoas da Trindade, também se identificava com as atitudes do Deus de Moisés, que muitos têm dificuldade em identificar com o Deus Pai que se revelou por Jesus o Cristo.

Não me parece que Jesus tenha celebrado uma ceia da Páscoa segundo o Velho Testamento, pois não encontramos o cordeiro da Páscoa, nem tal faria sentido, visto que o cordeiro era simples simbolismo do Cristo que estava presente.

Mas, utilizando um paralelo de ideias com a sua pergunta, “…poderia Jesus utilizar do vinho fermentado uma vez que Ele mesmo como Deus ordenou a Moisés que não usasse vinho fermentado para a Celebracao da Pascoa?” também lhe respondo com outras perguntas semelhantes:

Como poderia Jesus perdoar à mulher adúltera, se em Levítico 20:10 ordenara que as adúlteras fossem condenadas à morte? Não deveria Ele dar o exemplo atirando a primeira pedra?

Como seria possível Jesus determinar em Êxodo 31:12/14 a pena de morte para quem trabalhasse ao sábado, para depois Ele mesmo, várias vezes, curar em dia de sábado?

Como poderia Jesus estabelecer as leis sobre o divórcio em Deuteronómio 24:1 para se contradizer em Mateus 5:31/32?

Como poderia Jesus estabelecer as regras do “olho por olho e dente por dente” em Êxodo 21:24/25, para se contradizer em Mateus 5:38/42 proibindo a resistência ao inimigo?

Como poderia Jesus mandar amar ao próximo em Levítico 19:18, que nesse contexto eram somente os outros israelitas, para em Mateus 5:43/44 mandar amar até os inimigos?

Todas estas questões só têm uma explicação: A mensagem do próprio Filho de Deus nada tem a ver com as mensagens dos antigos profetas, assim como a Páscoa judaica não é a Ceia do Senhor.

 

3 – Mas há outra questão que lhe queria colocar: Qual o pão que utiliza na sua igreja na Ceia do Senhor? É o vulgar pão com fermento? Ou é o pão sem fermento, no tipo da hóstia como utiliza a Igreja Católica, o único tipo de pão permitido na celebração da Páscoa judaica?

Faço esta pergunta porque o vejo um tanto preocupado com a Lei de Moisés e de acordo com Êxodo 12:15 que menciona na sua mensagem, o prezado pastor e todos os membros da sua igreja, deveriam ser condenados à morte por lapidação por comer o vulgar pão fermentado no culto da Ceia do Senhor, se lhe aplicarmos os preceitos que se aplicavam à Páscoa judaica.

 

 

II – VINHO DA PÁSCOA JUDAICA

 

Julgo oportuno apresentar algumas informações sobre a utilização do vinho pelos judeus na comemoração da sua Páscoa.

Em Portugal há uma localidade próximo da Serra da Estrela, chamada Belmonte (a terra onde nasceu Pedro Álvares Cabral), onde estive há dias.

Nessa localidade há uma Sinagoga a funcionar, onde esses judeus portugueses cultivam as terras e inclusive fazem vinho Kosher que consideram próprio para a sua Páscoa de acordo com as suas tradições, embora o vinho seja fermentado na Adega Cooperativa da Covilhã, possivelmente pela necessidade de utilizar o equipamento para manter a temperatura e um laboratório de análises para controlar a maturação do mosto até ser transformado em vinho. Mas esse vinho é fabricado segundo supervisão da União Ortodoxa dos judeus.

Vou juntar umas fotos onde se pode ver o rótulo das garrafas, que em parte está em inglês, pois eles exportam para os judeus de todo o mundo. Mas qualquer pessoa pode comprar esse vinho. Eu comprei a € 10.00 por garrafa de 0,750 litros.

Repare que, de acordo com a nossa legislação, essas garrafas mencionam o teor de álcool que é de 13%. Nos vinhos portugueses esse teor de álcool geralmente varia entre 10 a 13%.

 

 

           

 

 

 

 

 

 

Penso que as igrejas, que tanto se preocupam com estes pormenores dos elementos utilizados na Ceia do Senhor, para serem coerentes com as suas convicções, deveriam utilizar só pão asmo, o pão sem fermento, e o vinho que os judeus bebiam e que certamente Jesus utilizou na sua última ceia com os apóstolos. Afinal, neste pormenor dos elementos da Ceia do Senhor, os católicos têm razão.

Ou será que se vão manter fiéis às tradições americanas, apesar de todas estas evidências? Nesse caso, não deveriam “ensinar” a todas as igrejas e Seminários na Europa que crente não pode beber vinho, pois Jesus nunca bebeu?! Não deveriam “ensinar” aos judeus ortodoxos que na Páscoa Judaica têm de beber “yayin” não fermentado (se é que esta expressão é correcta), como ensinam nos Seminários evangélicos de teologia por toda a América e Brasil?

 

III – IMPORTÂNCIA DOS ELEMENTOS DA SANTA CEIA

 

Resolvi acrescentar este capítulo, não só porque quem não leu o meu artigo Ceia do Senhor, Santa Ceia, Eucaristia, Missa (CC)  , poderá pensar que sou um acérrimo defensor destes preciosismos, quando afinal, considero isto como um bom passatempo para os fariseus dos nossos dias, como também porque estes artigos sobre o vinho poderão ajudar os irmãos evangélicos de todo o Brasil, a se libertar desse colonialismo teológico e cultural norte-americano, que noto sempre que vou ao Brasil. Mas bem sei que isto não basta, pois o mais importante será colocar a verdade do Mestre acima de todas as tradições e superstições, evangélicas, católicas ou protestantes, pois Mestre há só um.

Quando nos preocupamos com esses pormenores do tipo de pão ou tipo de vinho, como se isso fosse importante, é sinal de que nada percebemos da mensagem de Cristo que veio para se identificar com o homem pecador, em especial com os pobres.

Os elementos da Ceia são o símbolo de Cristo que Ele mesmo nos apresentou.

Que seria de nós, se fosse o homem ou as igrejas a escolher esses símbolos? Certamente que procurariam o ouro ou as pedras mais preciosas, como se essas pudessem representar o nosso Mestre. Esses símbolos só seriam acessíveis aos mais ricos e poderosos, como sempre acontece com as ideias humanas e os cultos da Ceia do Senhor, seriam momentos de exploração dos mais pobres e ingénuos.

O Mestre escolheu o pão, a comida mais barata e mais simples, produto do esforço do lavrador, fruto das muitas horas de trabalho árduo sob o Sol ardente, que tomou a forma que o padeiro lhe quis dar, e escolheu o vinho, a bebida do pobre na cultura em que viveu neste mundo.

Noutras culturas poderão escolher outros elementos em substituição do pão e do vinho, como digo nesse meu artigo sobre a Santa Ceia. O importante é que seja a comida e bebida do pobre. Pouco importa que não usem o vinho, mas não me parece que o sumo ou suco de uva seja uma bebida típica no Brasil, que esteja identificada com a cultura brasileira e acessível em todos os Estados do Brasil durante todo o ano.

Não deixemos que a teologia possa deturpar o pensamento do Mestre, complicando o que é simples, transparente e acessível a toda a humanidade.

Jesus se identificou com o pobre, escolheu a comida e bebida do pobre. Se fosse em África ou no Oriente, certamente que teria escolhido outros elementos, mas seria sempre a comida do pobre, acessível a todos, num ambiente em que Ele viveu, para mostrar a identificação do Filho de Deus com todo o ser humano.

Aqui em Portugal, não tenho dúvidas de que o vinho é uma bebida típica, a bebida do pobre. Mas resolvi perguntar a alguns colaboradores da minha página, qual o fruto mais integrado na cultura em que se encontram, cujo sumo pudesse substituir o vinho para uma maior integração cultural da Santa Ceia. Mas seria possível um só tipo de fruta para todo o Brasil? É possível que o vinho pudesse ser utilizado sem problemas no sul do Brasil, onde nunca estive.

O irmão Eng. David Oliveira, de Goiânia, sugere a jabuticaba, considerada a “uva dos pobres”, ou o açaí muito abundante em toda a Amazónia, ou o jamelão. (a)

O Pastor indiano António Francisco responde-me da Índia e vou transcrever algumas das suas afirmações:

Uma vez, numa pequena congregação, peguei num coco descascado (b) e num facalhão batendo com a parte não cortante do facalhão para quebrar o coco que se abriu em duas metades, ficando a água numa delas e na outra parte cortamos o miolo do coco para comer.

Todos compreenderam emocionados, que a pancada forte para quebrar o coco, simbolizava as chicotadas que Jesus sofreu e a água do coco o seu sangue.

O coco está bem integrado na cultura indiana e há cocos em todos os locais e todas as épocas do ano. A maioria do povo é hindu e o coco está quase sempre presente nas suas ofertas nos templos hindus.

Outra alternativa seria o brindão (c) que é bem vermelho. O caju, na Índia, não se encontra em todas as épocas do ano,

 

Que o Senhor nos ajude a compreender o Seu pensamento e Sua intenção quando estabeleceu a Santa Ceia, esse memorial da sua presença e da sua união com o crente e entre os crentes.

O que será mais importante? Que seja o pão e o vinho em todas as culturas, mesmo nas que os têm de importar a preços não acessíveis aos crentes? Ou que seja a comida do pobre que mais se assemelha ao pão e ao vinho?

Será mais verdadeira a Ceia do Senhor comemorada com o pão e o vinho, ou suco de uva, do que a Ceia do Senhor comemorada no interior de África ou em alguns locais do Oriente onde estes elementos não estão acessíveis aos pobres?

 

 

 

 

(a) Jabuticaba, açaí e jamelão, são frutas que se encontram facilmente no norte e nordeste do Brasil. Não sei se essa sugestão daria para todo o Brasil.

(b) Para quem sempre viveu na Europa, devo dizer que os cocos que conhece, já são “cocos descascados”, pois o fruto é muito mais volumoso. Aquilo a que em Portugal chamam de coco, e vemos nos mercados, é só o caroço, tal como acontece com a amêndoa.

(c) Brindão é fruta vermelha que costumam secar e utilizar durante todo o ano para condimentar o caril, em substituição do vinagre, devido à sua acidez.

 

Poderá enviar os seus comentários para eventual publicação, dirigidos a camilocoe@gmail.com

 

Relacionados com este assunto, leia também os artigos:

Vinho – O crente pode beber? (CC)

Ceia do Senhor, Santa Ceia, Eucaristia, Missa (CC)

Vinho na Santa Ceia, Comentários recebidos

 

Camilo – Marinha Grande, Portugal

Janeiro de 2010

 

 

Estudos bíblicos sem fronteiras teológicas