Não sou Charlie (CC)

(Deverá “clicar” nas referências bíblicas, para ter acesso aos textos)

 

 

Introdução

 

Como sabem os habituais visitantes da minha página na internet, sou um leigo ou um curioso em religiões, que tenta meditar e comparar religiões sem aceitar a infalibilidade ou inspiração de nenhum dirigente ou livro sagrado. Não seria possível meditar livremente se houvesse limitações ou outros condicionalismos à nossa meditação e investigação teológica que considerasse alguma “verdade” como intocável. Isso não seria verdadeira meditação teológica com “todo o nosso entendimento” de acordo com Mateus 22:37, mas simples mentalização doutrinária com limitações ao nosso entendimento. Julgo ser esse o problema do judaísmo, cuja meditação teológica está limitada às “fronteiras do Velho Testamento”, ou do cristianismo em geral que aceita a inspiração de toda a Bíblia que é a base intocável da sua meditação, ou do islamismo em relação ao Alcorão e aos profetas da Bíblia. Esses são livros “intocáveis” pela crítica dos fundamentalistas dos que os aceitam.

Tenho recebido várias mensagens sobre o ataque fundamentalista “islâmico” ao semanário francês Charlie Hebdo e agora também na Dinamarca, que nada dizem sob o aspecto de reflexão teológica, nem citam nenhum versículo do Alcorão nem da Bíblia.

Acredito que muitas dessas afirmações, que me enviam, sejam verdadeiras… Mas será que podemos responsabilizar os islâmicos, que são as principais vítimas desses actos de violência, ou os cristãos, ou judeus pela atitude de alguns fanáticos que há certamente entre todos eles?! Será que estamos perante um problema religioso, ou problema cultural, político ou económico em que a religião serve de importante elemento catalisador da agressividade humana? Se fosse só problema religioso, os teólogos teriam uma palavra a dizer, coisa que não tem acontecido, pois o problema é bem mais complicado. Mas, mesmo assim, penso que a teologia não pode alhear-se do problema, pois uma convicção teológica não pode ser combatida pela força das armas.

Neste artigo vou tentar privilegiar as origens, ou seja os textos em que baseiam toda a sua reflexão e não propriamente os aspectos culturais. (a)

 

  

Qual o motivo da grande divulgação deste assunto?

 

Quanto a esse ataque em Paris, certamente que a grande maioria da população mundial dos nossos dias condena as mortes que ocorreram. No entanto, geralmente não são as opiniões mais sensatas que prevalecem, mas a opinião de algum fanático revestido de autoridade que julga interpretar o pensamento de Deus, como foi o caso de Moisés em Números 31:07/18 depois da conquista de Midiã.

Costumo dizer que todas as religiões são perigosas, nomeadamente as monoteístas, pois tentam impor a sua “verdade” a todo o mundo, geralmente não só por motivos religiosos mas também por motivos, políticos e económicos e deixam de raciocinar livremente para se acomodarem e uma posição heterónoma, deixando-se influenciar por atitudes assumidas pelos seus heróis do passado e chamam a esses horrores de “grandes manifestações do poder do seu deus”. Escrevo deus com minúscula, para que não haja qualquer confusão com o Deus Pai que Jesus revelou.

Certamente que eu não sou a pessoa indicada para me pronunciar sobre o assunto, pois não sou entendido nesse tipo de “arte” do semanário francês Charlie Hebdo, se é que se pode chamar de arte a essas caricaturas a que em mau português chamam de “cartoons”, que se está a tornar um neologismo na nossa língua. Será que isso é arte?! Será uma boa amostragem da cidade de Paris que dignifica os seus famosos artistas?

Embora, como a grande maioria, eu também discorde desse acto terrorista, não vou dizer “Eu sou Charlie”. Primeiro porque não aprecio esses desenhos e em segundo lugar porque não me identifico com a atitude dos seus autores. Tenho dificuldade em considerar essas caricaturas como manifestações de arte, mas admito que sejam uma forma de expressão, tal como a música ou a linguagem escrita ou falada. Penso que neste caso, houve culpa, não só das duas partes. Da parte desses “artistas” franceses, da parte dos extremistas “islâmicos” e também da parte das autoridades francesas.

Julgo que a maior parte dos que dizem “Eu sou Charlie”, tomou precipitadamente essa opção no calor de emoção, sem ponderar todos os aspectos do seu significado.

Também sou a favor da liberdade de expressão, mas essa liberdade tem regras e tem limites. Se alguém levantar falsas informações contra o seu próximo, ou informações ofensivas para os outros, num país civilizado pode e deve ser responsabilizado pelos seus actos. Também o cristianismo foi ofendido e ridicularizado perante a passividade das autoridades francesas.

Como já afirmei, não acredito em infalíveis ou textos inspirados que não possam ser criticados, mas com respeito, pelo menos em atenção aos que neles acreditam. Todos temos o direito de discordar da fé dos outros, mas não de brincar ou ridicularizar aquilo que para outros é sagrado. (b)

Lembro-me do que aconteceu há alguns anos na Índia, em Orissa, quando missionários evangélicos classificaram de satânicos os deuses hindus. Ninguém obrigava esses missionários a aceitar os deuses hindus, mas ir à própria Índia para insultar as suas tradições religiosas, tem certas semelhanças com o caso do semanário Charlie Hebdo. Até uma religião tão tolerante e pacífica como o hinduísmo reagiu e bem se lembram do que aconteceu.

Nos últimos dias, houve outros ataques, noutros países europeus. Talvez estejamos ainda no “calor” dos acontecimentos, em que os ânimos estão exaltados, o que não é muito favorável a uma calma e sã reflexão teológica.

Se estes ataques, segundo dizem, têm alguma relação com o Alcorão, onde estão as passagens do Alcorão a que se referem? Será que quem faz essas afirmações conhece bem o Alcorão?

Mas, se essas passagens não existem, então julgo que será de dar a palavra aos teólogos islâmicos para que possam combater estes extremismos com o próprio Alcorão. Esses serão os principais interessados, pois não só o povo islâmico tem sido a principal vítima destes extremismos, como a imagem do Islão tem sido afectada.

 

 

Quem beneficiou com este ataque dos fundamentalistas “islâmicos”?

 

Há outro aspecto com que discordo desses terroristas “islâmicos”. (Escrevo “islâmicos” por respeito aos verdadeiros islâmicos). Assim, eles acabaram por fazer propaganda dessas caricaturas. Quantos em Portugal já tinham ouvido falar do jornal, ou semanário, Charlie Hebdo? Agora todos o conhecem. E quantos jornais vendiam, antes e depois destes problemas?

Esse semanário bem pode agradecer, não só a esses fanáticos “islâmicos”, como à ampla divulgação que o assunto teve nos órgãos de informação que tiveram a preocupação de destacar que houve uma reacção de todo o mudo, o que não me parece ser bem verdade, pois os reportes das nossas TVs tiveram a preocupação de destacar que altos dirigentes de todo o mundo participaram nessas manifestações de apoio a esse semanário, citando até, se a memória não me falha, países como a Bélgica com 10 milhões de habitantes, tanto como Portugal, ou a Dinamarca com 5 milhões, mas não vi nenhum representante da Índia com os seus 1250 milhões além duma larga experiência em resolver atritos entre diferentes religiões, nem dirigentes da Chima com 1360 milhões de habitantes.

 

Geralmente a Europa reage em função da proximidade dos acontecimentos (proximidade no espaço e no tempo) e o mesmo acontece em todos os países que conheço. Assim as vinte vítimas desse ataque em Paris, por estar no centro da Europa, são muito mais importantes que as centenas de jovens vítimas do ataque a essa escola no Paquistão, ou das jovens estudantes nigerianas que foram raptadas em África para evitar que estudem e serem vendidas como escravas. Estes dois últimos acontecimentos só foram notícia na nossa comunicação social durante alguns dias, possivelmente por não estarem no centro da Europa.

 Podemos também colocar a questão: Porque 70 anos depois do extermínio de judeus do tempo de Hitler esse crime horrível ainda tem tanto tempo de antena nas nossas TVs e nada se diz dos ciganos e homossexuais exterminados pelo Hitler, nem das vítimas da Hiroxima e Nagasáqui? Mas, a acreditar nos textos do Velho Testamento, ainda pior fizeram os judeus nas guerras de ocupação da “terra prometida” em que todos os povos que lá habitavam, foram exterminados no tempo de Moisés e Josué ao serviço do imperialismo sionista, que os mais “espirituais” dos nossos dias consideram como grandes manifestações do poder de deus. Claro que me refiro ao deus de Moisés. Tudo isso vem na própria Bíblia, no Velho Testamento que muitos judeus, cristãos e islâmicos consideram como textos inspirados. Refiro-me concretamente ao genocídio de Jericó segundo instruções do deus dos judeus em Josué 6 :17/24 e à destruição da cidade de Hai ou Ai, depois da guerra terminar, descrita em Josué 8:23/30. Será que a história se repete com os palestinianos e o Israel dos nossos dias?!

 

 

Afinal, o que dizem os textos considerados como inspirados pelas religiões abraâmicas?

 

É vulgar classificar os autores desses actos de terrorismo como “fundamentalistas islâmicos”. Mas o que é um fundamentalista? Em teologia, geralmente considera-se fundamentalista aquele que defende a fidelidade absoluta à interpretação literal dum texto religioso.

Então, vamos investigar quais são, e onde estão, os textos religiosos que incentivam a violência e a guerra entre religiões, que é a principal finalidade deste artigo.

Bem sei que com isso teremos de mencionar certos textos tabu, que geralmente não são mencionados, pois ficam sempre “para a próxima oportunidade”, nem constam dos textos dos lecionários, mas na busca da verdade, não os podemos ignorar, mesmo que tenhamos de desagradar a todos.

Será que os métodos utilizados neste caso dos ataques em Paris, bem como pelo Estado Islâmico, tais como a proclamação das suas doutrinas pela força das armas, etc etc ….. tem fundamento nos textos do Alcorão, do Novo Testamento ou do Velho Testamento? 

Tentei investigar nos textos considerados como inspirados. Alguns fundamentalistas evangélicos até dizem que os textos de toda a Bíblia são “a Verdade, sem sombra de erro”.

Em vez de transcrever as passagens, prefiro colocar uma ligação aos livros sagrados para que cada leitor possa “clicar” nas referências e examinar os versículos no seu contexto. Nomeadamente, para quem não souber grego nem hebraico, como é o meu caso, será importante examinar outras traduções e verificar, de acordo com uma boa hermenêutica, se são passagens históricas que se limitam a descrever o passado ou passagens normativas que se devam aplicar aos nossos dias, bem como se estamos perante a descrição de guerras defensivas ou ofensivas, com o objetivo da expansão dos impérios, ou se o objectivo do texto será o de acalmar ou incentivar a violência.   

 

 

Alcorão:

 

Tentei investigar no Alcorão e encontrei as seguintes passagens:

Alcorão 2:190/194 Isto foi escrito num contexto de guerra, mas julgo tratar-se da guerra defensiva, pois nomeadamente Alcorão 2:190 condena a agressão, mas incentiva a guerra defensiva. Também encontrei Alcorão 4:85/96 , Alcorão 9:1/18 .

Não podemos esquecer de que os 9 primeiros capítulos do Alcorão foram escritos num contexto de guerra e é nesse contexto que devem ser interpretados.

Outra passagem do Alcorão sobre outras religiões é Alcorão 5:48/51 A tradução que utilizamos foi efectuada a partir da língua inglesa, pelo que contém alguma deturpação em relação aos textos em árabe. Assim, apresentamos a seguir os mesmos versículos, tal como estão na nova tradução, efectuada directamente a partir das cópias dos textos originais em árabe para português, na tradução ainda em elaboração na Mesquita de Lisboa.

Alcorão Sura 5

Vr.48 E revelamos-te o Livro com a Verdade, confirmando o Livro que o precedeu e fizemos-te seu vigilador. Portanto julga-os entre eles conforme o que Allah revelou e não sigas os seus desejos, desviando-te da Verdade que te chegou. A cada um de vós, nós temos prescrito uma lei e um caminho aberto. E se Deus quisesse teria feito de vós um só povo, mas fez-vos como sois, para vos testar por aquilo que vos concedeu, portanto, competi uns com os outros nas boas acções. Todos voltareis para junto de Allah, que então vos esclarecerá e respeito das vossas divergências,

Vr.49 E ordenamos-te que julgues entre eles conforme o que Allah revelou, e não sigas os seus desejos, e toma cuidado para que eles não tentem afastar-te de alguma coisa daquilo que Allah te revelou. Se eles  te voltarem as costas,  fica sabendo que Allah os castigará por causa de alguns dos seus  pecados. E, na verdade, muitos dos homens são rebeldes.   

Vr.50 É o julgamento (dos dias) da ignorância que eles procuram? E quem pode ser melhor juiz do que Allah, para um povo que creia firmemente?

Vr.51 Ó vós que credes! Não tomeis os judeus e os cristãos como seus amigos (protectores). Ele são amigos (protectores) uns dos outros, e aquele de entre vós os tomar por amigos, por certo será um deles. Na verdade Allah não guia o povo iníquo. 

Encontrei mais três passagens no Alcorão que falam em matar, mas são passagens históricas: Alcorão 12:9 refere-se a José do Egipto, Alcorão 29:24 refere-se a Abraão e Alcorão 40:25/26 refere-se a Moisés no Egipto.

 

 

Novo Testamento

 

O cristianismo, com base no Novo Testamento é uma religião pacifista, embora a atitude de muitos “cristãos” não o tenha sido através dos tempos.

Não podemos ignorar que, enquanto a maior parte das religiões tenha aparecido num contexto de guerra e violência, como foi o caso, já referido do Alcorão, assim como iremos ver, o caso do Velho Testamento e também o do Bhagavad Guitá do hinduísmo, no caso do Novo Testamento estava-se em plena época a que poderemos chamar de “globalização do Império Romano”, em que as fronteiras entre os vários reinos foram derrubadas e havia algumas línguas em que todos se podiam entender, nomeadamente o latim e o grego. Julgo que tal facto teve grande influência na mensagem que Jesus apresentou, a um mundo que era já mais semelhante ao mundo em que vivemos. Claro que não podemos aceitar ingenuamente que havia uma paz perfeita na época em que Jesus viveu, mas sim uma “paz” que se mantinha à custa do exército romano.

A única vez em que Jesus tem uma atitude violenta é no caso da expulsão dos comerciantes do Templo que encontramos em Mateus 21:10/13, Marcos 11:15, Lucas 19:45/46 e João 2:13/16, pois são passagens paralelas. É interessante que não foi contra outras religiões nem contra as autoridades romanas que ocupavam Israel, mas contra os próprios comerciantes israelitas do Templo de Jerusalém. Penso que se trata duma passagem histórica e não normativa para os nossos dias.

Mencionamos também algumas passagens em que Jesus manda amar os próprios inimigos. Mateus 5:44, Lucas 6:27 ou Lucas 6:35, atitude impensável nas outras religiões, bem como apelos ao pacifismo em Mateus 5:39 ou Lucas 6:27/29.

 

 

Velho Testamento

 

Ao ler o Velho Testamento, não nos podemos esquecer de que estamos perante 39 livros canónicos, os principais, escritos provavelmente no tempo de Salomão cerca de 900 anos antes de Cristo, mas tratava-se de tradições transmitidas oralmente desde o tempo de Abraão, 1900 anos antes da época cristã, e outros textos de influência egípcia, integrados na cultura judaica através de Moisés que foi um dos grandes legisladores do Velho Testamento.

No contexto histórico de Moisés, durante os 40 anos da peregrinação pelo deserto, Israel era um grupo de escravos recém-libertados, indisciplinados, volúveis, habituados a só obedecer ao chicote dos capatazes em que a Lei teria de ser rígida e implacável para que fosse cumprida. Nesse contexto histórico, os que nasceram nesses 40 anos, só tiveram conhecimento de outros povos nas lutas que travaram no deserto, em que atacaram os povos que viviam nos seus territórios para conquistar as terras que o deus dos israelitas lhes tinha prometido. Claro que para esses israelitas, estrangeiro era sinónimo de inimigo que a religião os preparou para atacar e matar.

Muita coisa horrível aconteceu, quando Israel invadiu esses territórios. A destruição de algumas cidades ficou registada nas páginas do Velho Testamento, como no caso da cidade de Jericó ou da cidade de Ai, que os mais “espirituais” consideram como grandes manifestações do poder do deus de Moisés. Embora fosse em ambiente de guerra, nada  há que justifique as barbaridades cometidas em cumprimento das leis do Velho Testamento.

Tentamos fazer uma listagem de algumas dessas leis em Velho Testamento (Algumas leis do), onde a par de passagens históricas, temos também passagens normativas que, não só os judeus fundamentalistas, como também muitos cristãos que aceitam a inerrância de toda a Bíblia, que consideram eterna e “sem sombra de erro”, bem como islâmicos que também aceitam os profetas da antiguidade, defendem que devem ser cumpridas nos nossos dias.

Será que o homem do século XXI deverá cumprir Deuteronómio 23:13 ou será possível a coexistência pacífica de várias religiões em face de Êxodo22:20?

Em face de Deuteronómio 13:6/10 será possível a liberdade de pensamento e de religião?

 

 

Conclusão

 

Sendo o Velho Testamento, a primeira parte da Bíblia, aceite não só pelos judeus, mas também por muitos cristãos e islâmicos, penso que há passagens mais que suficiente para incentivar estas atitudes violentas dos extremistas “islâmicos” dos nossos dias. Mencionei algumas dessas passagens, mas há muitas mais, contra a liberdade de expressão e que legalizam a discriminação da mulher, a escravatura, a pena de morte por trabalhar ao sábado ou comer alimentos proibidos etc etc. Muitos cristãos ao longo de história, se têm servido desses incentivos à violência do Velho Testamento.

Não sei se será possível, ou pelo menos não será fácil, uma livre reflexão teológica entre seguidores de diferentes religiões abraâmicas, pois cada um tem a sua “verdade”, os seus “infalíveis” ou as suas escrituras que o impedem de meditar livremente e sentem-se na obrigação de converter os outros à sua “verdade”. O melhor que se pode esperar é que haja respeito e tolerância para com as outras religiões ou como vimos em Alcorão 5:48 que as religiões possam competir umas com as outras nas boas acções. Passagem que nos faz lembrar de Mateus 7:20/23 Nós julgamos conhecer os homens pela sua religião, ou pela sua liturgia, ou pela sua teologia, ou cultura, ou linguajar religioso, ou pelas suas vestes, ou pela sua raça, ou nacionalidade, mas Jesus afirma que é “pelos seus frutos” que os podemos conhecer e será assim que Ele conhecerá os seus quando voltar.     

Pessoalmente, considero-me cristão, por crer em Jesus Cristo como a mais perfeita e credível revelação de Deus, pois ninguém falou como Ele.

Todos os fundadores das religiões deixaram os seus livros, mas Jesus Cristo não deixou nada escrito pessoalmente que tivesse a finalidade de preservar os seus ensinos. O Novo Testamento foi escrito pelos seus discípulos, depois da sua morte e ressurreição. Mas Jesus nos deixou o Espírito Santo, pois Deus é espírito e manifesta-se pelo Espírito Santo. Deus é soberano e é livre de manifestar-se a quem O buscar pelos meios que Ele entender.

Não significa isso que acredite em toda a Bíblia, pois Jesus transgrediu muitos dos mandamento da Bíblia, ao recusar apedrejar os leprosos e até tocando neles Mateus 8:2/3 e Marcos 1:40/42 e tocando num morto em Lucas 7:11/17, tornando-se assim impuro de acordo com a Lei de Moisés em Números 5:1/3 ou Números 19:13.

Eu não me preocupo nem tenciono seguir e Bíblia nem nenhum outro livro religioso, mas tento seguir a Cristo. Não estou a tentar diminuir as Escrituras que muitos consideram como sagradas. Geralmente os cristãos tentam seguir as suas Escrituras como se Jesus tivesse dito “Não vos deixarei órfãos, deixo-vos as escrituras” mas o que Ele disse foi um pouco diferente como vemos em João 14:15/18. Ou como está na tradução da BPT João 14 15 Se me amarem hão-de cumprir os meus mandamentos, 16 e eu pedirei ao Pai para vos enviar um outro Defensor que esteja sempre convosco. 17 O Espírito de verdade que o mundo não pode receber, porque não o vê nem o conhece. Ele está convosco e habitará em vós, por isso o conhecem. 18 Não vos hei-de deixar órfãos pois voltarei para junto de vós.

Quando Jesus afirmou que não nos deixaria órfãos, eles já tinham todos os livros do Velho Testamento. Não ficaríamos órfãos, não por termos o Velho Testamento nem os livros do Novo Testamento que foram escritos mais tarde, mas porque Ele nos deixou o Espírito de Deus que passou a estar disponível a quem O procure. Em vez do deus distante, o altíssimo ou o deus dos exércitos, Ele nos revelou o Deus Pai, que “está no meio de nós”.

Tudo que é escrito, fica como que “congelado no tempo”, relacionado com uma cultura e com um determinado contexto histórico, enquanto o ser humano continua a sua evolução. Mas o Pai continua sempre actual, mais próximo de nós que nós próprios e controla todas as pequenas células do nosso organismo. 

Certamente que Jesus Cristo várias vezes se referiu às Escrituras, mas a Sua Palavra sempre esteve bem acima de todos os textos considerados como inspirados.           

    

Camilo – Marinha Grande, Portugal

Março de 2015

 

 

 

(a) Quero distinguir entre os textos considerados como inspirados que estão na origem das várias religiões, e as respectivas culturas religiosas, nomeadamente a liturgia e gestos litúrgicos.

Cito como exemplo a burca das mulheres que quase sempre relacionam com o islamismo. Afinal o Alcorão não fala na burca e nem todos os islâmicos têm essa tradição. Segundo o historiador Joaquim Jeremias, no seu livro “Jerusalém no tempo de Jesus” as mulheres da classe alta de Jerusalém tinham limitações que fazem lembrar alguns ambientes islâmicos. Mas será que elas são obrigadas a usar a burca? Sim e não…  

Segundo um amigo islâmico, em certos ambientes, elas são “obrigadas”, não pelo Alcorão, mas pela cultura em que vivem, pois parece mal e consideram um escândalo a mulher andar sem a burca. Podemos comparar com a gravata em certos ambientes do ocidente. Afinal, para que serve a gravata?! Mas em certos ambiente, parece mal se não usarem gravata e todos se sentem “obrigados” a usar a sua gravata.

Também na forma de rezar, não só dos islâmicos como dos judeus e cristãos, não vejo que tenham bom fundamento nos seus livros religiosos. Assim como os gestos litúrgicos dos católicos e as bonitas frases memorizadas dos evangélicos, que dizem orar livremente, mas não deixam de ser frases memorizadas nos cultos.

Assim, neste artigo, vou tentar limitar-me ao que tiver fundamento nos textos considerados como sagrados.

 

 

(b) Essas imagens, que não vou publicar na minha página, estão disponíveis na internet a quem procurar por Charlie Hebdo.

Eu, que me considero cristão, mas não me identifico com nenhuma igreja, não prescindo de me demarcar desta mentalidade e dizer que “Não sou Charlie”.

Seja que religião for, mesmo as mais primitivas, do interior de África ou da Amazónia, temos o direito de as rejeitar ou aceitar, mas não de ofender os seus crentes.

 

Veja também esta entrevista sobre islâmicos portugueses:

https://drive.google.com/file/d/0B8pt_BRBXz_pY09ycHNqYkhFdWM/view?usp=sharing

 

 

 

 

NOTA:

Este artigo, poderá ser divulgado livremente ou transcrito noutros meios de informação, desde que o seja na íntegra, sem alterações, e citem a sua origem e o nome do autor.

Sugerimos no entanto uma ligação informática a esta nossa página na internet a Estudos bíblicos sem fronteiras teológicas ou directamente ao artigo Não sou Charlie (CC)  

 

 

 

 

 

Comentários recebidos

 

 

 

Arménio Anjo – Leiria, Portugal

Março de 2015

Em meu entender, trata-se de um belíssimo artigo que complementa aquele que escrevi sobre os acontecimentos CHARLIE, em Paris.

A tua abordagem, e muito bem, é feita essencialmente numa perspectiva TEOLÓGICA.

Eu faço-o mais com sentido ÉTICO e MORAL, apontando a MENSAGEM de JESUS CRISTO (mensagem de AMOR desinteressado) como o ÚNICO CAMINHO a ser seguido para obstar a tanta conflitualidade que grassa mundo fora.

Bem hajas pelo teu artigo!